João: um amigo que se foi.

Fomos criados para a vida, talvez por isso, que nos cause tanta dor tocar a morte de perto. A ordem natural é contrariada, quando uma vida, ainda na juventude, é ceifada. E ainda mais quando este alguém é tão querido e amado, a dor é tão grande, que nossa razão não compreende e nossa inteligência não explica.

Sim, sabemos que a vida não acaba aqui, sabemos que existe um céu e uma vida plena que nos espera na eternidade. Temos esperança que um dia nos encontraremos todos em Deus, e lá onde não haverá mais dor, viveremos na plenitude para qual fomos criados, a plenitude do amor, da felicidade, da paz e da presença de Deus.

Porém, mesmo tendo esta convicção e confiança, sofremos. Sofremos a dor de saber que alguém que viveu na nossa história, que faz parte de nós, que amamos, simplesmente deixou de existir. Sofremos a dor de saber que, nesta vida nunca mais veremos, nunca mais poderemos tocar, olhar, conversar, conviver, sofremos a dor de sonhos interrompidos, sofremos a dor da ausência, da saudade, do até breve.

Nesta semana temos experimentado esta dor misturada ao sentimento de gratidão a Deus, por ter-nos dado a oportunidade de ter amado um amigo tão precioso. Pois afinal, o que importa na vida de verdade é o amor com que amamos, e as marcas que deixamos na vida do outro.

Este sofrimento nos fez refletir, repensar nossa própria existência, o lugar de cada coisa, o sentido da nossa vida e o nosso fim último. Diante do infortúnio, muitas perguntas surgem em nosso coração.

Deus poderia ter feito algo? Foi a vontade de Deus? Era a hora dele? Porque dessa forma? Porque tão jovem? Porque ele?

De fato, a morte é um mistério que interpela a todos nós. Mas não podemos pensar que Deus quis a morte de alguém, não.

Temos de olhar a realidade e constatar uma verdade, Deus dá ao homem a liberdade, e a vida é um presente que Ele nos dá, e nós somos responsáveis por ela. 

Seria muito fácil em todos os acontecimentos culparmos sempre a Deus ou ao Diabo. Onde fica a nossa parte, onde está a responsabilidade do ser humano diante da própria existência?

Pensar sobre a forma como João Gustavo morreu, é ter a certeza, que mais uma vez, sofremos pela irresponsabilidade, pela estupidez humana.

Sei, o João Gustavo entrou naquele porque quis, talvez pela curiosidade do empreendimento tão divulgado na pequena cidade, um investimento de mais de 1oo mil reais num carro para turbiná-lo, me desculpem os que gostam deste tipo de coisa, mas quanta futilidade, tanta gente morrendo de fome, gente morrendo por não ter como comprar remédios, crianças abandonadas, e o quanto este dinheiro poderia ter feito bem às pessoas, mas não, a ganância, a avidez por vencer os limites, a estupidez, a futilidade e o egoísmo nos dominam.

E fico pensando, nos que tiveram a brilhante ideia de colocar sei lá quantos cavalos de potência de motor num carro Gol, sem a mínima noção de que um carro quando é projetado para os esportes de velocidade é levado em consideração a aerodinâmica adequada, o modelo, o tamanho, os freios adequados, enfim... E as autoridades policiais, numa cidade como Guariba, onde todo mundo conhece todo mundo, não viram este carro modificado, o que é crime, rodando pela cidade?

Uma serie de irresponsabilidades, de negligencias e de atos inconsequentes culminaram na morte do João, e ainda dizemos, Deus quis assim!

Enfim, podemos achar tudo isso normal, algo que sempre acontece, afinal, a todo tempo estamos burlando as leis, desafiando os limites humanos e é assim mesmo, os jovens gostam de correr risco. Ou podemos nos indignar com a estupidez humana que gera tanto sofrimento, ou fazer a diferença no mundo.


A vida é preciosa demais para gastarmos os nossos anos com tanta futilidade, com tanta superficialidade e nos contentarmos com uma vida sem comprometimento e responsabilidade. Espero que eu e você tenhamos a coragem de fazer diferente, de usar aquilo que nos diferencia de todos os outros animais, a cabeça, a inteligência,  a nossa capacidade de pensar. Precisamos usar a inteligência para o bem e para o amor.

Não é possível que a morte do João seja mais uma morte, pelo menos para aqueles que o amavam, precisamos honrar a vida dele, que foi ceifada de forma tão estúpida. Não podemos nos conformar que sua morte acabe impune e que cai no esquecimento daqui à pouco.

A justiça e a responsabilização das pessoas envolvidas neste acidente precisa acontecer, para que nunca mais alguém morra de forma tão imbecil. E para que nenhuma mãe precise chorar a morte precoce de um filho cheio de vida e de sonhos.

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